Doce melancoliaGaúcha radicada na Ilha, Anna Laux faz de seu CD de estréia uma bela coleção de canções darkPor Rubens Herbst
06 de março de 2003
Joinville - "Noite passada eu tive um pesadelo/Noite passada eu estava na cama, morta e sozinha". Difícil imaginar que na Ilha da Magia, das quatro dezenas de praias e do
reggae alto astral floresçam versos como estes, mais a ver com alguma banda britânica ou um trovador americano solitário. Pois é em meio a exuberância de Florianópolis que Anna Laux entoa suas doces canções
dark; as mesmas que formam o surpreendente "Jasmine", disco de estréia da cantora-compositora.
As primeiras notas do álbum, no entanto, surgiram bem longe da capital catarinense, mais precisamente na Suécia. Lá, a gaúcha - que saiu do Brasil com 18 anos para estudar inglês em San Francisco (EUA) - começou a compor no violão canções que traduzissem a solidão que sentia. Uma delas, "Jasmine Song", caiu no gosto de um produtor de rádio em Gotemburgo, que a tocou durante uma semana, em 2000. No mesmo ano, a boa repercussão rendeu a Anna um convite para participar do Hultsfred Festival, o maior do verão escandinavo, mas como ela estava no Brasil o show não rolou.
Em Florianópolis, onde se estabeleceu há um ano e meio, a cantora passou a dar forma definitiva para o que viria a ser "Jasmine". Contando com a colaboração de músicos de estúdio, ela e o produtor Marcelo Baio de Oliveira deram vida a canções que passam bem longe do pop animadinho que infesta as rádios, empilhando melodias complexas e letras que giram em torno de solidão, lembranças e corações despedaçados. "Elas expressam as minhas insatisfações, e é natural que tenham essa carga melancólica. É um disco despretensioso e verdadeiro", afirma Anna, cujo registro vocal alterna suavidade e aspereza. Despojado também, pode-se acrescentar. A melancolia buscada pela artista ganha pulso na produção crua e básica, resultando nas guitarras sutis que dão acento roqueiro a "Jasmine Song", "Lone Dreamer" e "Out of Time", nos riffs secos de "Ghosts in the Living Room" e nos violões singelos que enfeitam "Have You Ever Seen Me?", "Chronology" e "Fire at me". Além de "Ballad of Strings", uma das mais belas músicas deste começo de 2003, outro destaque é a versão para a emocionante "Diamonds and Rust", de Joan Baez.
Baez, por sinal, é uma das preferências de Anna Laux, ao lado de outros folk singers dos anos 60, como Bob Dylan e Joni Mitchell, e baluartes da música popular brasileira (MPB), como Elis Regina, Tom Jobim e Chico Buarque. No entanto, o trabalho da cantora remete, em vários momentos, ao grupo irlandês Cranberries, outro adepto do pop complexo e de tintas soturnas. "Já me disseram isso", confirma Anna, que gosta da banda, mas não concorda muito com a comparação.
"Jasmine" está saindo de forma independente, com tiragem de mil cópias, que servirão principalmente para divulgar o trabalho da gaúcha. Shows, por enquanto, ainda são um projeto em gestação, preparado aos poucos. "Acho complicado montar um estrutura sem saber exatamente o que se quer. Por isso, estou divulgando mais em rádios, gravadoras e lojas", explica. Por causa da opção pelo inglês e da distribuição do disco também na Inglaterra e Suécia, ela não descarta uma possível carreira internacional. "Tudo vai depender de como as coisas transcorrerem", conclui Anna, que fez as músicas do espetáculo "Urano Quer Mudar", a ser apresentado no próximo Festival Universitário de Teatro de Blumenau, e a trilha sonora do curta "Sorria - Você Está Sendo Filmado", um dos vencedores do Edital de Cinema 2001 da Fundação Ctarinense de Cultura (FCC).